Tenho pensado muito em símbolos ultimamente. Em lições que aprendemos e em lições que desperdiçamos. Em como a natureza cria e recria delicadas formas de comunicação, singelas e ao mesmo tempo intensas em seu sentido atávico de promover constante crescimento e evolução. Infelizmente, muitas vezes nós não estamos suficientemente atentos e acabamos por desperdiçar estas fontes pungentes de aprendizado. Passamos ao largo, sem dar-lhes a devida atenção.Alguns símbolos possuem forma auto-explicativa. Não precisamos falar muito deles para que se compreenda a força de sua representação. Para mim, a simbologia da flor de lótus está contida entre estes.
A pureza representada pela flor de lótus ocorre em alusão ao seu processo de crescimento, passando das águas lodosas para a superfície e quando desabrocha mostra toda a sua beleza e força, abrindo flores brancas imaculadas. Uma flor que emerge apenas de água suja e parada, utiliza a lama em decomposição para se nutrir e ganhar força, depois ergue-se com toda a sua plenitude, à vista de todos.
Faz-me pensar na necessidade que temos de suportar cada experiência negativa de modo a faze-la trabalhar em nosso favor, para ensinar-nos, tornar-nos fortes, ajudar-nos a desenvolver nossa beleza interior, até ser possível atravessar todos os obstáculos e emergirmos, nós também, imaculados, em todo o resplendor de nossa beleza particular. Sua lição fundamental é que também possuímos tal habilidade, só precisamos aprender a utiliza-la.
Esta flor é enigmática até para a ciência. Há algumas curiosidades sobre a planta pesquisadas pela botânica que procura descobrir, por exemplo, porque as folhas da flor de lótus são autolimpantes, repelindo poeira e microorganismos. Uma flor “antiaderente”.
Interessante que esta, digamos, habilidade da flor não chega a me causar tanta surpresa. Não seria muito provável que ela pudesse apresentar pétalas tão imaculadas sem esta propriedade “repelente”, vindo de onde vem e passando por onde passou. É preciso, também nós, aprendermos a arte de repelir aquilo que vai nos macular, aquilo que pode grudar em nós, obstruindo nossa verdadeira imagem, impedindo que sejamos apreciados pelo que verdadeiramente somos.
Quando olhamos para alguma coisa que não está bem limpa, vemos primeiro a sujeira que a recobre, antes mesmo de olhar verdadeiramente para a coisa em si. Ao olharmos para a flor de lótus, podemos apreciar a beleza em sua plenitude porque não há absolutamente nada entre ela e nós. Podemos apreender toda sua pureza e simplicidade num primeiro e único olhar. Ela não se esconde, não teme nem se envergonha de mostrar suas origens. Apenas floresce, como prova viva do poder de superação que existe em cada um de nós.
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