Esta é a parte final deste conto...
Se quiser voltar ao começo, leia aqui:
Nosso rei faz votos de purificação.
Ele viaja até os confins do mundo para encontrar sua amada e seu filho. Percorre
os quatro cantos do reino por sete anos, sem comer ou beber. Mas uma força
maior do que ele mesmo o ajuda a viver.
Porque ele, que é o rei do outro
mundo, tem que peregrinar? Ele não é o
Rei?
Nesta história está embutida a antiga ideia de que, quando uma força da
psique muda, as outras também tem que mudar.
A mulher cumpriu sua descida
completa, foi lavada e purificada muitas vezes. A tentativa do predador de assumir
o controle da alma fracassou de modo irreversível. Sua resistência foi testada
e aprovada. Ela não é mais a donzela com a qual ele se casou. Não é mais uma
frágil andarilha. Agora ela conhece suas atitudes, está iniciada. Agora ela tem
mãos!
O rei deve, portanto, sofrer para
se desenvolver. Ele representa nossa adaptação à vida coletiva, ele comunica as
idéias profundas aprendidas, trazendo-as até a superfície. Só que ele não esteve nas
mesmas situações que ela, para poder transmitir ao mundo o que ela é, o que ela
sabe.
Ele é mergulhado em sua própria
transformação através da peregrinação, ao mesmo tempo em que ela se encontra na
floresta profunda. Ele não perdeu suas mãos, mas perdeu sua mulher e seu filho.
O ânimus entra em seus próprios
sete anos de aprendizado, assim como a anima, a alma. Com isso, tudo aquilo que
ela aprendeu nas profundezas ficará inscrito nela, mas também irá moldar seu
atos concretos na superfície.
A atitude de não se alimentar
está ligada ao controle dos apetites, dos nossos impulsos, todos eles, inclusive
os de natureza sexual. Trata do aprendizado dos ciclos de equilíbrio e da
valorização. Ele busca sua meta, não importa o que atravesse seu caminho.
Neste período, ele não se banha.
Isso arranca de sobre si toda e qualquer camada de civilidade. Ambos
peregrinaram na floresta subterrânea. Ele está preparado para representar o
verdadeiro interior da alma na rotina do dia a dia. É freqüente, neste período,
que sintamos aflorar nosso amor pela vida mais ligada à natureza, que isso venha
à tona em nosso mundo objetivo. Costuma acontecer que agimos “aqui” do mesmo
modo como costumamos agir quando estamos “lá”, no profundo de nós mesmos.
É
surpreendente que passamos por todo este processo enquanto nossa vida cotidiana
continua aqui neste mundo de fora. Nós amamos, corremos atrás das crianças,
fazemos nosso trabalho, enterramos nossos mortos, cumprimos nossas tarefas, ao
mesmo tempo em que avançamos nesta jornada profunda e distante. E isto é bom. Esta
tensão cria uma vida preciosa e bem torneada, que não poderia ser alcançada de
nenhuma outra forma.
Vemos, portanto, o animus
preparando-se para ser um parceiro adequado para a donzela.
Sétimo Ciclo
O rei chega, por fim, à
estalagem. Ao lugar de descanso. Ao fim da jornada. Ali, sob mãos suaves que
lhe estendem um véu sobre o rosto, ele adormece. Ao despertar, uma surpresa! Há
uma mulher e uma criança ao seu lado. “Sou sua esposa, e este é seu filho”. O
rei se maravilha, quer acreditar, mas percebe que aquela mulher tem mãos...
“Com todas as minhas aflições”,
disse ela, “minhas mãos me voltaram”. E trouxe-lhe as mãos de prata, guardadas
como uma relíquia sagrada, para comprovar. O rei abraça a mulher e o filho
tanto tempo ausentes, e naquele dia houve uma alegria imensa na floresta.
O rei
e a rainha voltam para o castelo, onde os estava aguardando a Velha Mãe, e
fizeram um grande banquete para celebrar um novo casamento. Tiveram muitos
filhos depois, todos os quais contaram essa história para outros cem, que
contaram para outros cem, assim como eu a estou contando a vocês agora!
A história da Noiva sem Mãos é uma
história real.
Ela não trata de uma parte da nossa vida, mas da nossa existência
inteira.
Em sua essência, ela nos ensina que o trabalho do autoconhecimento
consiste em vaguear, entrando e saindo da floresta várias vezes, sendo
alimentados pelos frutos do espírito e conseguindo nos reunir a tudo e a todos
que verdadeiramente amamos.
Recuperar o instinto ferido,
eliminar a ingenuidade, aprender os aspectos mais profundos da psique, defender
aquilo que representamos. Tudo isso exige uma resistência infinita. Passamos
por este ciclo pelo menos uma vez a cada sete anos, a cada fase de mudanças. A
primeira vez costuma ser muito suave. Pelo
menos uma das vezes será muito difícil. Mas, a partir daí, todo o processo se
apresenta como um aspecto de recordação ou renovação.
Quando emergimos de volta, por
fora pode parecer que não mudamos. Mas por dentro, reconquistamos um vasto
território. Na superfície, ainda somos simpáticos. Mas debaixo da pele,
decididamente não somos mais mansos...
*Este conto foi resumido e adaptado do livro Mulheres que correm com lobos





