terça-feira, 13 de agosto de 2019

Sete Ciclos de Sete Anos - Final



Esta é a parte final deste conto...

Se quiser voltar ao começo, leia aqui:


Nosso rei faz votos de purificação. Ele viaja até os confins do mundo para encontrar sua amada e seu filho. Percorre os quatro cantos do reino por sete anos, sem comer ou beber. Mas uma força maior do que ele mesmo o ajuda a viver.

Porque ele, que é o rei do outro mundo,  tem que peregrinar? Ele não é o Rei? 
Nesta história está embutida a antiga ideia de que, quando uma força da psique muda, as outras também tem que mudar. 

A mulher cumpriu sua descida completa, foi lavada e purificada muitas vezes. A tentativa do predador de assumir o controle da alma fracassou de modo irreversível. Sua resistência foi testada e aprovada. Ela não é mais a donzela com a qual ele se casou. Não é mais uma frágil andarilha. Agora ela conhece suas atitudes, está iniciada. Agora ela tem mãos!

O rei deve, portanto, sofrer para se desenvolver. Ele representa nossa adaptação à vida coletiva, ele comunica as idéias profundas aprendidas, trazendo-as  até a superfície. Só que ele não esteve nas mesmas situações que ela, para poder transmitir ao mundo o que ela é, o que ela sabe.

Ele é mergulhado em sua própria transformação através da peregrinação, ao mesmo tempo em que ela se encontra na floresta profunda. Ele não perdeu suas mãos, mas perdeu sua mulher e seu filho.

O ânimus entra em seus próprios sete anos de aprendizado, assim como a anima, a alma. Com isso, tudo aquilo que ela aprendeu nas profundezas ficará inscrito nela, mas também irá moldar seu atos concretos na superfície.

A atitude de não se alimentar está ligada ao controle dos apetites, dos nossos impulsos, todos eles, inclusive os de natureza sexual. Trata do aprendizado dos ciclos de equilíbrio e da valorização. Ele busca sua meta, não importa o que atravesse seu caminho.

Neste período, ele não se banha. Isso arranca de sobre si toda e qualquer camada de civilidade. Ambos peregrinaram na floresta subterrânea. Ele está preparado para representar o verdadeiro interior da alma na rotina do dia a dia. É freqüente, neste período, que sintamos aflorar nosso amor pela vida mais ligada à natureza, que isso venha à tona em nosso mundo objetivo. Costuma acontecer que agimos “aqui” do mesmo modo como costumamos agir quando estamos “lá”, no profundo de nós mesmos. 

É surpreendente que passamos por todo este processo enquanto nossa vida cotidiana continua aqui neste mundo de fora. Nós amamos, corremos atrás das crianças, fazemos nosso trabalho, enterramos nossos mortos, cumprimos nossas tarefas, ao mesmo tempo em que avançamos nesta jornada profunda e distante. E isto é bom. Esta tensão cria uma vida preciosa e bem torneada, que não poderia ser alcançada de nenhuma outra forma.

Vemos, portanto, o animus preparando-se para ser um parceiro adequado para a donzela.

Sétimo Ciclo

O rei chega, por fim, à estalagem. Ao lugar de descanso. Ao fim da jornada. Ali, sob mãos suaves que lhe estendem um véu sobre o rosto, ele adormece. Ao despertar, uma surpresa! Há uma mulher e uma criança ao seu lado. “Sou sua esposa, e este é seu filho”. O rei se maravilha, quer acreditar, mas percebe que aquela mulher tem mãos...

“Com todas as minhas aflições”, disse ela, “minhas mãos me voltaram”. E trouxe-lhe as mãos de prata, guardadas como uma relíquia sagrada, para comprovar. O rei abraça a mulher e o filho tanto tempo ausentes, e naquele dia houve uma alegria imensa na floresta. 

O rei e a rainha voltam para o castelo, onde os estava aguardando a Velha Mãe, e fizeram um grande banquete para celebrar um novo casamento. Tiveram muitos filhos depois, todos os quais contaram essa história para outros cem, que contaram para outros cem, assim como eu a estou contando a vocês agora!

A história da Noiva sem Mãos é uma história real. 
Ela não trata de uma parte da nossa vida, mas da nossa existência inteira. 
Em sua essência, ela nos ensina que o trabalho do autoconhecimento consiste em vaguear, entrando e saindo da floresta várias vezes, sendo alimentados pelos frutos do espírito e conseguindo nos reunir a tudo e a todos que verdadeiramente amamos.

Recuperar o instinto ferido, eliminar a ingenuidade, aprender os aspectos mais profundos da psique, defender aquilo que representamos. Tudo isso exige uma resistência infinita. Passamos por este ciclo pelo menos uma vez a cada sete anos, a cada fase de mudanças. A primeira vez costuma ser muito suave.  Pelo menos uma das vezes será muito difícil. Mas, a partir daí, todo o processo se apresenta como um aspecto de recordação ou renovação.

Quando emergimos de volta, por fora pode parecer que não mudamos. Mas por dentro, reconquistamos um vasto território. Na superfície, ainda somos simpáticos. Mas debaixo da pele, decididamente não somos mais mansos...



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*Este conto foi resumido e adaptado do livro Mulheres que correm com lobos

Sete Ciclos de Sete Anos - Sexta parte


A jovem rainha chega à floresta mais extensa e mais profunda que jamais vira. 

Não é possível nela detectar trilhas. É preciso abrir o próprio caminho, passando por cima, por dentro e em volta de tudo. Até encontrar o lugar de repouso para a alma. Ali tudo é simples. Não há espaço para complicações nem contendas. Ali ela está em casa. Ali ela encontra paz, ali passa sete anos repousantes. O tempo necessário para se conhecer profundamente, para se restabelecer.

Durante sua trajetória, suas camadas de defesa vão se tornando diáfanas, até que o brilho de sua alma começa a transparecer. Esta é a floresta profunda, repleta de árvores sagradas e ancestrais, animais, mansos e selvagens, pequenos e grandes. Esta é uma região cheia de clareiras e recantos. Esta é, finalmente, sua terra, o lugar onde sua alma florida e impetuosa pode reconquistar suas raízes. 

Ali suas mãos voltam a crescer. Aos poucos, em fases, sem pressa. Primeiro com a compreensão imitativa, como um bebê. Depois, uma compreensão mais concreta, mais absoluta, de tudo. Agora, finalmente, ela consegue captar com profundidade o abstrato, o metafórico. Agora ela tem mãos de mulher.

À medida que praticamos o profundo conhecimento instintivo acerca do nosso aprendizado, nossas mãos voltam a nós. Finalmente retomamos o controle de nossas vidas e podemos moldá-las ao nosso verdadeiro modo de ser.

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Ao mesmo tempo, o rei retorna e descobre que o predador sabotou suas mensagens...

Sexto Ciclo

O rei jurou não mais comer ou beber até encontrar sua esposa e seu filho. Ele procurou por sete anos a fio. Suas mãos ficaram negras, sua barba, de um tom semelhante ao musgo, seus olhos, avermelhados e ressecados.

Em todo esse tempo, uma força maior que ele o ajudou a se manter vivo.

Afinal, ele chegou à estalagem na floresta. De tão cansado, ele se deitou. Alguém suavemente estendeu um véu sobre seu rosto, e ele adormeceu. 

Ao despertar...

( Continua...)


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Sete Ciclos de Sete Anos - Quinto Ciclo


Nossa rainha teve um lindo bebê. O filho do espírito! Esse nascimento interior desperta o predador, esse aspecto sutil e poderoso da psique que distorce as percepções humanas, procurando impedir que os vínculos com os profundos conhecimentos instintivos se fortaleçam. Ainda que ele tenha preferência pelas almas famintas e debilitadas, é atraído também pela luz da nova consciência, pela renovação, pela liberdade recém adquirida.

É digno de nota que muitos aspectos da cultura, enquanto sistema de pensamento coletivo dominante em proximidade suficiente para influenciar nossas crenças, atuem como o feiticeiro, através da difamação dos objetivos, das proibições e punições injustificadas, das críticas irracionais. São estes os meios pelos quais o predador troca as mensagens vitalizantes entre a alma e o espírito por mensagens letais, que nos cortam o coração e nos enchem de vergonha e inibição. É uma força que precisa ser dominada e contida.

Entretanto, a mãe do rei vê realmente o que está acontecendo. Ela não cede. Em vez de ser cúmplice, ela é mais esperta que o predador. Por mais que ele minta e tente mudar as mensagens, ela se recusa a sacrificar a filha. Ela sabe o que é íntegro, reconhece um predador quando vê um e sabe o que fazer a respeito. Mesmo quando pressionada pelas mensagens psíquicas deturpadas. É isso que podemos aprender com ela, quando cavamos até o fundo de nós, realizando o trabalho de desenvolvimento da consciência. Aprendemos a identificar as ações de um predador, ao invés de ignorá-lo.  Aprendemos seus truques, seus disfarces. Aprendemos a “ler nas entrelinhas” das mensagens que foram transformadas de verdadeiras em manipuladoras. Em seguida, quer o predador emane do nosso próprio meio psíquico, quer do meio cultural, somos capazes de enfrentá-lo e fazer o que precisa ser feito.

Por ser uma força inata da psique, o predador se opõe naturalmente ao filho espiritual. No processo de aprendizado, se alguém deu à luz algo de belo, algo de perverso também irá surgir, mesmo que momentaneamente. O nascimento do novo faz com que complexos surjam do depósito de lixo psíquico, aquele território sombrio em nós onde vivem espalhados os destroços de todas as idéias, impulsos e desejos esquecidos ou não levados à diante, e tentem nos fazer desanimar. O antídoto é o conhecimento dos nossos talentos, assim como de nossas fraquezas, para que o complexo não consiga atuar isoladamente. Precisamos conhecer, classificar e rotular os impulsos reprimidos, com o objetivo de diminuir seu potencial.

Se você sente que perdeu sua missão, sua vitalidade, se sente confuso e disperso, procure o predador, aquele que arma emboscadas para a alma, por mais que você tenha vontade de fechar os olhos e se entregar ao sono. O feiticeiro mente ao afirmar que a união da alma com o espírito gerou uma fera, quando na realidade foi gerada uma bela criança. É preciso ter fé para continuar nessa hora.

Agora ele exige outras amputações. Quer que lhe obedeçam. Mas a Velha Mãe está a postos, indignada. Ela se recusa a obedecer. Em vez disso, ela começa a agir com astúcia. Ela envia a jovem para mais um local de aprendizado. A jovem mãe, logo após dar à luz novas idéias, uma nova forma de ver a vida, precisa partir. A Velha Mãe se despede com um beijo, demostrando o profundo afeto que agora une a alma e sua profunda natureza instintiva, e lhe concede dupla benção: seu bebê é colocado junto ao seu seio, para que possa se nutrir no caminho, e ela é coberta com um véu. Esse símbolo trata da privacidade, da necessidade de ficar só. Não é um disfarce, mas uma forma de preservar a natureza misteriosa.

Cobrir com o véu tem a mesma relação com a expressão “cobrir a tigela”, o ato de colocar um pano sobre o vasilhame com a massa sovada para fazer crescer o pão. Existe agora um poderoso fermento na alma, e cobrir com o véu intensifica sua ação ou sentimento. A jovem é coberta com o véu para sair em viagem, e fica portanto intocável. Do mesmo modo, nossa alma velada, embora não nos torne inatingíveis, nos mantém de algum modo afastados de uma imersão total na rotina da vida. Estamos perambulando à procura de nosso lugar no inconsciente, a terra à qual pertencemos.

A maior e mais selvagem  floresta que jamais vimos...

Quinto Ciclo – A floresta profunda

Na tentativa de procurar um caminho, a jovem passava por cima, por dentro e por redor do mato. Quase ao escurecer, encontrou uma pobre estalagem de gente simples da floresta. Uma donzela vestida de branco a levou para dentro, demonstrando saber quem ela era. A criança foi posta em um berço. E ali a rainha ficou por sete anos, sentindo-se feliz com sua vida e com sua criança. Aos poucos, suas mãos lhe foram voltando. Primeiro, como pequeninas mãos de bebê, rosadas como conchas. Depois, mãos de menina. E, afinal, mãos de mulher.

Enquanto isso, o rei voltava da guerra, e sua mãe se lamentou com ele por ter que matar a rainha e lhe entregou uma caixa contendo os olhos e a língua da corça sacrificada. Ao ouvir a terrível notícia, ele cambaleou e chorou inconsolável. A mãe, ao ver a sua dor, contou toda a verdade. O rei jurou sair pelo mundo em busca de sua rainha e seu filho, viajando até onde o céu continuasse azul, sem mais comer ou beber até encontrar os dois...

( Continua...)

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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Sete ciclos de Sete anos - Quarta parte


Nosso capítulo anterior começa com o rei prometendo amar e proteger a donzela. Manda fazer para ela um par de mãos de prata, as mãos espirituais que agirão em sua defesa, permitindo que viva com maior capacidade neste mundo interior. Receber mãos de prata significa ser investido dos poderes espirituais do toque, de tatear no escuro. Ela é, portanto, coroada como rainha, não com uma coroa na cabeça, mas com mãos de prata nos tocos dos braços.

O rei viaja para um lugar distante. A régia energia da psique se afasta, para que possa ocorrer o próximo passo do processo de desenvolvimento, para que possa ser posta à prova esta nova postura recém adquirida pela psique. Quando sentimos que o apoio interno, no qual tanto confiamos, não nos foi retirado, mas houve uma redução da proximidade, podemos ter certeza de que um novo período de provas está prestes a começar. Um período no qual será exigido de nós que confiemos na memória da alma, até que o amado retorne.

A donzela compreende que o princípio régio da sua psique está comprometido com ela e não a abandonará. Ela está “cheia em si mesma”, impregnada de uma ideia nascente de como sua vida poderá vir a ser, se prosseguir em seus esforços. Ela está grávida. É um período mágico e frustrante pela demora na espera. Dar à luz é o equivalente psíquico de adquirir nova identidade, uma psique unida, coesa, não dividida. É quando a psique entende que tudo que a toca faz parte dela. O desafio de amar aspectos desagradáveis de nós mesmos, especialmente os impulsos que consideramos repulsivos. Um novo ser em nós está a caminho. Nossa vida interior, como a conhecíamos, está prestes a mudar.

A jovem tem um lindo bebê, e a noticia jubilosa é enviada ao rei. Mas o mensageiro adormece no caminho, e o feiticeiro troca as mensagens. Pois adivinhem quem está sempre aprontando? O velho rastreador de donzelas. No conto, o mensageiro adormece à beira do rio. O córrego do sono que provoca o esquecimento. Somos a donzela, e somos o mensageiro. Já passamos por tanta coisa, queremos só descansar. Quem pode nos culpar? E nos deitamos, junto a um lindo córrego. Não deixamos o caminho. É só que... queríamos dar um tempinho, só um pouquinho, fechar os olhos só por um instante...

E, antes que percebamos, o predador dentro de nós, dá um salto e troca as mensagens. “Você voltou à sua antiga inocência, agora que se sente amada? Tola.” O predador tem a capacidade de distorcer nossas percepções e as compreensões vitais que precisamos para desenvolver dignidade moral, amplitude de visão e ação solidária, para com nossas vidas e no mundo.

O rei da nossa psique tem muita firmeza. Fica firme em seu amor pela esposa e, apesar de chocado com a mensagem trocada, insiste no cuidado para com ela. Que tratem bem sua amada neste período tão difícil. Esse é o teste da nossa certeza interior. Duas forças, dois aspectos de nós mesmos,  podem manter o vínculo mesmo que uma delas seja exposta e apontada como abominável e desprezível? O predador tem esperança que a psique se torne polarizada e destrua a si mesma ao rejeitar um aspecto recentemente desperto na consciência. Mesmo assim, no retorno, a mensagem é novamente trocada.
“Matem a rainha e a criança”!

Quarto ciclo – o relacionamento com a sabedoria

A velha mãe do rei ficou abalada com esta ordem. E mandou um mensageiro pedindo confirmação. Corriam os mensageiros de um lado para outro, cada um adormecendo junto ao rio, enquanto o feiticeiro trocava as mensagens, que iam ficando cada vez mais apavorantes.

A última dizia: “Matem a rainha, e guardem sua língua e seus olhos para servir de prova.”

A velha mãe não pôde suportar a ideia de matar a doce rainha. Em vez disso, sacrificou uma corça, arrancou sua língua e olhos e os escondeu. Em seguida ela ajudou a jovem a atar o bebê junto ao peito e, cobrindo-a com um véu, disse que ela precisava fugir para salvar sua vida. As mulheres choraram e se beijaram na despedida. A jovem rainha vagueou, até chegar na floresta mais densa e mais selvagem que jamais vira...
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terça-feira, 6 de agosto de 2019

Sete Ciclos de Sete Anos - Terceira parte


Na parte anterior que do conto que contamos, há duas referencias importantes, que vale a pena relembrar. O numero três que se repete, três anos para a volta do feiticeiro, três tentativas ele faz para levá-la, e a menção às lágrimas...

Lembremos que cada personagem da história revela um aspecto de uma mesma psique. Somos todos, e somos um. Somos o que tenta nos destruir, somos o que pode nos preservar.

O numero três representa o acumulo de tensão, o máximo fortalecimento, na máxima consciência. Tem o significado de vida, morte e ressurreição. Na primeira vez a menina se prepara para ser levada, na segunda vez, ela tem suas mão sacrificadas, na terceira vez, ela recupera o poder sobre si mesma através do poder de suas lágrimas. 

A donzela chora. Há algo na pureza das lágrimas que mantém o mal afastado. Descobrimos o quanto isso é verdadeiro nas ocasiões quando choramos até não poder mais, por saber que não há nada, absolutamente mais nada  a fazer. E, no entanto, são nossas lágrimas muitas vezes que nos impedem de sermos reduzidos a cinzas. Chorar faz bem, e é certo. Chorar não cura o dilema, mas permite que o processo continue.

O pai faz a oferta de mantê-la na riqueza pelo resto da vida, mas ela diz que vai partir para depender apenas do destino. Iria ela se recolher, ferida e sem mãos, deixando-se levar e fazendo o que lhe ordenam? Sua natureza instintiva recusa o oferecimento pois sente que precisa lutar para viver em plena consciência, custe o que custar. Ela parte com feridas, mas também com um sistema de valores renovado. A mãe e o pai, os aspectos coletivos e do ego da psique, já não tem mais poder sobre ela. Seus novos guias são o vento e a estrada.

Vemos que a donzela passou por uma transformação, a do despertar. Vemos que ela vagueia assumindo sua natureza animal, que não se lava. É a atitude certa para continuar a decida, uma atitude do tipo “não ligo para as coisas deste mundo, não me importa o que pensem”. Ela é capaz de suportar  a sujeira, a traição, a mágoa, o exílio, e voltar enriquecida.

Agora a donzela não apenas está desfigurada, mas faminta. Ela se ajoelha diante do pomar como de um altar. Ali há alimento para ela de um tipo que no mundo anterior não havia.O fruto maduro, separado por um fosso. Ela não consegue chegar até lá. Então, como sempre acontece nos momentos mais autênticos da psique, o milagre acontece, o espírito de branco, aquele aspecto da intuição que nos ajuda a remover os obstáculos. O fosso aqui representa o inconsciente dos seres humanos, um torvelinho com imagens, seduções, ameaças e torturas. É importante que tenhamos bom senso espiritual, na imagem de um guia, para que não nos percamos nesta correnteza interior.

Agora ela se depara com uma árvore novamente, não mais uma arvore florida, mas com fruto maduro. Comer a pêra nutre a donzela. Num ato de amor, o inconsciente, a intuição, se curva, e nos alimenta. Essa fonte não resolve o sofrimento, mas ajuda a alimentar quando nada mais se oferece. É o maná no deserto, o que sacia a fome para que possamos prosseguir. É isso que interessa, prosseguir, até nosso destino de conhecimento.

Na manhã seguinte o rei vem contar suas peras. Ele cultiva a alma, o seu pomar. Sob suas ordens, o jardineiro semeia, cuida e colhe novas energias. O rei representa o tesouro de conhecimento constantemente renovado do nosso interior. É ele que acolhe a donzela que é deste mundo e do outro, a parte da psique que pode viver “lá fora” e “aqui dentro”. Em termos psíquicos, isso representa as antigas atitudes que vão ser substituídos por novos pontos de vista. O rei representa a renovação das leis que regem a psique.

Terceiro Ciclo

No castelo, o rei mandou fazer para ela um par de mãos de prata.

Passado algum tempo, o rei precisou partir para combater num reino distante e pediu à sua mãe que cuidasse da jovem rainha, que estava grávida. “Quando ela der à luz, avise-me imediatamente!”

A jovem deu à luz um lindo bebê, e a mãe do rei mandou um mensageiro para dar as boas novas. No entanto, no meio do caminho o mensageiro se cansou. Chegando à beira de um rio, adormeceu. O feiticeiro apareceu, então, de trás das árvores e trocou a mensagem por uma que dizia que a rainha havia dado a luz a uma criança que era metade cachorro.

O rei ficou horrorizado com a noticia, mas como amava muito a rainha, mandou de volta uma carta recomendando que a cuidassem com muito carinho neste momento difícil. O rapaz que vinha trazendo a mensagem mais uma vez chegou ao rio. Sentindo a cabeça pesada, logo adormeceu junto à água. O feiticeiro apareceu novamente e trocou a mensagem para outra que dizia:

“Matem a rainha e a criança!”

( Continua...)
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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Sete ciclos de Sete anos - Segundo Ciclo

Nossa história continua...
Se você caiu aqui de paraquedas, veja primeiro o link da postagem anterior!


Vejamos agora o que aconteceu com a nossa donzela, após perder suas mãos...

Neste primeiro estágio da história, o moleiro vulnerável faz um pacto infeliz. Na psicologia arquetípica, todos os elementos de um conto são aspectos de uma mesma psique. Logo, ao examinar essa história precisamos nos perguntar: qual o pacto infeliz que fizemos? Embora existam respostas diferentes para cada pessoa, o pacto mais infeliz de nossas vidas é quando nos privamos de nossa vida criativa em troca de uma outra vida que é muito mais frágil, quando entregamos nossa natureza instintiva em troca de algo que parece rico, mas se revela vazio.

A história começa com o símbolo do moinho e do moleiro. Como ele, a psique é um triturador de idéias. Ela mastiga os conceitos e os transforma em alimento. No entanto, nessa historia, o moinho não está funcionando direito e isso quer dizer que nada está sendo feito com os grãos de conhecimento que chegam do mundo.

O moleiro, passando por dificuldades, está a caminho de cortar lenha. Esse é um trabalho pesado, envolve muito esforço. No entanto, esse corte de lenha representa a capacidade da psique de fazer o trabalho extremamente árduo de produzir luz e calor para si mesma. Mas o pobre ego está sempre em busca de uma saída mais fácil. É assim que selamos nosso destino.

A macieira florida e a donzela são símbolos de maturação do nosso conhecimento. Se o que sabemos acerca de nós mesmos e da nossa própria alma não estiver ainda gerado frutos, não podemos nos nutrir com ele. Esse é o estado da filha, uma criatura inocente. No entanto, ela poderia passar o resto de seus dias varrendo o quintal por trás do moinho para sempre. Nenhum ser neste mundo tem a permissão de permanecer inocente para sempre. Para que possamos crescer, precisamos encarar o fato de que as coisas não são como parecem ser a princípio.

A mãe é a que informa a toda a psique o que realmente ocorreu. Ela diz “Acordem! Veja o que realmente aconteceu!”. Agora a dor chega ao consciente. Quando a dor é consciente, é possível fazer algo a respeito. Pode ser usada para o aprendizado e para o fortalecimento.

O feiticeiro simboliza a força sinistra da psique, o predador, que muitas vezes não é reconhecido pelo que é. Ao fim de três anos ele volta, mas não consegue se aproximar da menina. Sua pureza acaba repelindo a energia destrutiva. Ele ordena que ela não se banhe, deseja enfraquecê-la com sua degradação, para roubá-la de si mesma. O predador não consegue perceber que sua proibição a aproxima cada vez mais de sua poderosa natureza. Suas lágrimas são a germinação daquilo que a preservará.

O objetivo do predador passa a ser fazer com que a donzela perca suas mãos, sua capacidade de apreender, de segurar, de ajudar a si mesma e a outros. Com a perda das mãos, a inocência foi assassinada, nada jamais voltará a ser como antes...

O segundo ciclo

Continua o conto para marcar outro ponto...

"Pela terceira vez o feiticeiro volta para levar a menina. Quando ele chegou, a pobre moça havia chorado tanto que os tocos de seus braços estavam novamente limpos, e ele foi mais uma vez atirado para o outro lado do quintal. Lançando maldições, ele desapareceu para sempre, pois havia perdido seu direito sobre ela.

O pai havia envelhecido cem anos, e prometeu cuidar da menina pelo resto da vida, mas ela resolveu sair pelo mundo, vagueando como mendiga. Pediu que atassem seus braços com faixas, e se afastou da sua vida como havia sido até então.

Ela caminhou muito. A sujeira riscou seu rosto, o vento desgrenhou seu cabelo. No meio da noite, chegou a um pomar cercado por um fosso.Caiu então de joelhos, pois estava faminta. Neste momento, um espírito vestido de branco surgiu para abrir as comportas e esvaziar o fosso.

A donzela caminhou entre as pereiras maduras, sabendo, de alguma forma,  que cada fruto ali era cuidado e vigiado. Mesmo assim, um ramo curvou-se até ela, oferecendo-se,  fazendo o galho estalar. Ela tocou o fruto com os lábios, e ali em pé ao luar, com os braços atados e os cabelos desgrenhados, comeu com prazer. Depois foi dormir no abrigo do bosque.

No outro dia, o rei daquele lugar veio conferir suas peras. Ele descobriu que estava faltando uma. Quando perguntou o que havia acontecido, o jardineiro, que havia visto tudo, tinha a explicação. O rei disse que iria montar guarda aquela noite. À meia noite, a donzela em farrapos, com o rosto sujo, os braços sem mãos e com o espírito de branco ao lado, saiu da floresta. Novamente foram abertas as comportas, mais uma vez ela se aproximou e o rei contemplou admirado quando a arvore se curvou gentilmente e ofereceu seu fruto à donzela, que o sorveu diretamente do galho.

O rei se aproximou com cautela e perguntou se ela era humana ou um espírito. “Os dois”, disse ela. “Não a deixarei partir”, exclamou ele, “Deste dia em diante, eu cuidarei de você.”

 No castelo, ele mandou fazer um par de mãos de prata, que foram atados aos seus braços, 
e foi assim que o rei se casou com a donzela.

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domingo, 4 de agosto de 2019

Sete ciclos de Sete anos


“Se uma historia é uma semente, então nós somos o seu solo”.

O ato de ouvir uma história nos permite vivenciá-la. 
Entre os junguianos isso se chama mística da participação, “quando a pessoa não consegue se distinguir como entidade separada do objeto observado”. 

Entre os freudianos, é uma atitude chamada “identificação projetiva”. 

Para os contadores de histórias isso é a “magia solidária”, a capacidade da mente de se afastar do seu ego e se fundir com uma outra realidade, ali vivenciando e aprendendo idéias que não poderia aprender em nenhuma outra forma de consciência.

A “Noiva sem mãos” é um conto antigo que trata da iniciação da psique através do rito de resistência, no sentido de tornar forte, tornar firme, endurecer. O ensino da resistência ocorre em toda a natureza.

A patinha dos filhotes de lobo, por exemplo, é macia como barro molhado ao nascer. São os passeios, as perambulações que as enrijecem. As mães lobas costumam mergulhar seus filhotes nos córregos mais gelados, correm com eles até que suas perninhas estejam tão cansadas que não consigam mais as acompanhar. Elas estão fortalecendo as pequenas criaturas, investindo-lhes força e rápida capacidade de recuperação. Nossa vida é como a Grande Mãe Selvagem, no seu eterno ritual de nos dar a têmpera necessária para nos tornar resistentes e poderosos.

A noiva do conto realiza algumas decidas. A cada estágio de transformação, ela mergulha em outro ainda mais profundo. Todas estas decidas, perdas, descobertas e fortalecimento ilustram a renovação perpétua dos aspectos mais profundos de nossa própria natureza.

Nos próximos sete dias, contarei aqui a história da donzela, e seus múltiplos significados...

O primeiro ciclo

“Era uma vez, num dia que foi ainda ontem, um moleiro que possuía uma pedra enorme de moer farinha para fazer pão. Esse moleiro passava por dificuldades, e nada mais lhe restava além da pedra de moer e de uma macieira florida que ficava atrás do moinho. Um dia, ao sair para cortar lenha com seu machado de prata, encontra um feiticeiro que lhe promete riquezas sem fim em troca do que havia atrás do moinho naquele momento.

“O que há atrás do meu moinho além da macieira florida”, pensou ele, e aceitou a oferta. “Dentro de três anos, voltarei para buscar o que é meu” disse o feiticeiro, gargalhando alto ao se afastar mancando.

O moleiro encontra sua mulher no caminho de volta, que pergunta esbaforida o que havia acontecido, pois ao bater as badaladas do relógio, tudo na casa mudara: os móveis foram trocados, a pobre despensa se encheu de víveres e os baús estavam repletos de roupas novas...

“Conheci um estranho no caminho”, disse ele, “que me prometeu enorme fortuna em troca do que está atrás do moinho. Ora, lá só tem uma macieira! Claro que podemos plantar outra!”
“Sim, meu marido”, lamentou a mulher, “mas neste momento está lá também nossa filha, varrendo o quintal com uma vassoura de salgueiro”! E assim, os dois foram para casa, derramando lágrimas sobre seus belos trajes.

A filha ficou sem casar por três anos, e tinha o temperamento doce como as maçãs da primavera. No dia que o feiticeiro veio levá-la, colocou um vestido branco e ficou parada num circulo de giz que ela mesma fizera à sua volta. Quando o feiticeiro tentou agarrá-la, uma força invisível o lançou para longe.

“Ela não deve mais se banhar, ou não poderei me aproximar dela” gritou ele, enfurecido. E algumas semanas se passaram, sem que ela se banhasse, até que seu cabelo ficasse emaranhado, suas unhas negras, suas roupas encardidas de sujeira.

Com a donzela cada dia mais parecida com um animal, surgiu mais uma vez o feiticeiro. No entanto, a menina chorou. E suas lágrimas, escorrendo pelos seus braços e mãos, os deixaram alvos e limpos. Mais uma vez o feiticeiro não conseguiu tocá-la. “Cortem-lhe fora as mãos”, berrou ele, “ ou tudo aqui em volta irá morrer, assim como você e sua mulher e os campos até onde a vista alcance”.

Apavorado, o pai obedeceu e, pedindo perdão à filha, começou a afiar seu machado de prata. A filha conformou-se. “Sou sua filha. Faça o que deve fazer”. E ele fez. No final ninguém saberia dizer quem gritou mais alto, a filha ou o pai.

Terminou assim a vida da menina, da forma que ela conhecia até então.

(continua...)
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