“Se uma historia é uma semente,
então nós somos o seu solo”.
O ato de ouvir uma história nos permite vivenciá-la.
Entre os junguianos isso se chama mística da participação, “quando a pessoa não consegue se distinguir como entidade separada do objeto observado”.
Entre os freudianos, é uma atitude chamada “identificação projetiva”.
Para os contadores de histórias isso é a “magia solidária”, a capacidade da mente de se afastar do seu ego e se fundir com uma outra realidade, ali vivenciando e aprendendo idéias que não poderia aprender em nenhuma outra forma de consciência.
O ato de ouvir uma história nos permite vivenciá-la.
Entre os junguianos isso se chama mística da participação, “quando a pessoa não consegue se distinguir como entidade separada do objeto observado”.
Entre os freudianos, é uma atitude chamada “identificação projetiva”.
Para os contadores de histórias isso é a “magia solidária”, a capacidade da mente de se afastar do seu ego e se fundir com uma outra realidade, ali vivenciando e aprendendo idéias que não poderia aprender em nenhuma outra forma de consciência.
A “Noiva sem mãos” é um conto
antigo que trata da iniciação da psique através do rito de resistência, no
sentido de tornar forte, tornar firme, endurecer. O ensino da resistência ocorre
em toda a natureza.
A patinha dos filhotes de lobo, por exemplo, é macia como barro molhado ao nascer. São os passeios, as perambulações que as enrijecem. As mães lobas costumam mergulhar seus filhotes nos córregos mais gelados, correm com eles até que suas perninhas estejam tão cansadas que não consigam mais as acompanhar. Elas estão fortalecendo as pequenas criaturas, investindo-lhes força e rápida capacidade de recuperação. Nossa vida é como a Grande Mãe Selvagem, no seu eterno ritual de nos dar a têmpera necessária para nos tornar resistentes e poderosos.
A patinha dos filhotes de lobo, por exemplo, é macia como barro molhado ao nascer. São os passeios, as perambulações que as enrijecem. As mães lobas costumam mergulhar seus filhotes nos córregos mais gelados, correm com eles até que suas perninhas estejam tão cansadas que não consigam mais as acompanhar. Elas estão fortalecendo as pequenas criaturas, investindo-lhes força e rápida capacidade de recuperação. Nossa vida é como a Grande Mãe Selvagem, no seu eterno ritual de nos dar a têmpera necessária para nos tornar resistentes e poderosos.
A noiva do conto realiza algumas
decidas. A cada estágio de transformação, ela mergulha em outro ainda mais
profundo. Todas estas decidas, perdas, descobertas e fortalecimento ilustram a
renovação perpétua dos aspectos mais profundos de nossa própria natureza.
Nos próximos sete dias, contarei
aqui a história da donzela, e seus múltiplos significados...
O primeiro ciclo
“Era uma vez, num dia que foi ainda
ontem, um moleiro que possuía uma pedra enorme de moer farinha para fazer pão.
Esse moleiro passava por dificuldades, e nada mais lhe restava além da pedra de
moer e de uma macieira florida que ficava atrás do moinho. Um dia, ao sair para
cortar lenha com seu machado de prata, encontra um feiticeiro que lhe promete
riquezas sem fim em troca do que havia atrás do moinho naquele momento.
“O que há atrás do meu moinho além
da macieira florida”, pensou ele, e aceitou a oferta. “Dentro de três anos,
voltarei para buscar o que é meu” disse o feiticeiro, gargalhando alto ao se
afastar mancando.
O moleiro encontra sua mulher no
caminho de volta, que pergunta esbaforida o que havia acontecido, pois ao bater
as badaladas do relógio, tudo na casa mudara: os móveis foram trocados, a pobre
despensa se encheu de víveres e os baús estavam repletos de roupas novas...
“Conheci um estranho no caminho”,
disse ele, “que me prometeu enorme fortuna em troca do que está atrás do
moinho. Ora, lá só tem uma macieira! Claro que podemos plantar outra!”
“Sim, meu marido”, lamentou a
mulher, “mas neste momento está lá também nossa filha, varrendo o quintal com
uma vassoura de salgueiro”! E assim, os dois foram para casa, derramando
lágrimas sobre seus belos trajes.
A filha ficou sem casar por três anos,
e tinha o temperamento doce como as maçãs da primavera. No dia que o feiticeiro
veio levá-la, colocou um vestido branco e ficou parada num circulo de giz que
ela mesma fizera à sua volta. Quando o feiticeiro tentou agarrá-la, uma força invisível
o lançou para longe.
“Ela não deve mais se banhar, ou
não poderei me aproximar dela” gritou ele, enfurecido. E algumas semanas se passaram,
sem que ela se banhasse, até que seu cabelo ficasse emaranhado, suas unhas
negras, suas roupas encardidas de sujeira.
Com a donzela cada dia mais parecida com um animal, surgiu mais uma vez o feiticeiro. No entanto, a menina chorou. E suas lágrimas, escorrendo pelos seus braços e mãos, os deixaram alvos e limpos. Mais uma vez o feiticeiro não conseguiu tocá-la. “Cortem-lhe fora as mãos”, berrou ele, “ ou tudo aqui em volta irá morrer, assim como você e sua mulher e os campos até onde a vista alcance”.
Com a donzela cada dia mais parecida com um animal, surgiu mais uma vez o feiticeiro. No entanto, a menina chorou. E suas lágrimas, escorrendo pelos seus braços e mãos, os deixaram alvos e limpos. Mais uma vez o feiticeiro não conseguiu tocá-la. “Cortem-lhe fora as mãos”, berrou ele, “ ou tudo aqui em volta irá morrer, assim como você e sua mulher e os campos até onde a vista alcance”.
Apavorado, o pai obedeceu e,
pedindo perdão à filha, começou a afiar seu machado de prata. A filha conformou-se. “Sou sua
filha. Faça o que deve fazer”. E ele fez. No final ninguém saberia dizer quem gritou mais alto, a filha ou o pai.
Terminou assim a vida da menina, da forma que ela conhecia até então.
Terminou assim a vida da menina, da forma que ela conhecia até então.
(continua...)

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