O que fazer quando por dentro você se sente insatisfeito, paralisado e sem ânimo, quando tudo parece estar simplesmente se arrastando, quando você parece estar atuando numa farsa e se sente tão sufocado que acredita que fugir é a única saída?
Eu me fiz estas e outras perguntas vezes sem conta. Até que percebi que, não importa com quem você está casado, você sempre vai terminar consigo mesmo no fim das contas. O outro é apenas o pano de fundo para você testar suas necessidades, sua capacidade de amar, seus tabus e feridas, o abismo entre seus desejos e medos. Nenhum parceiro pode fazer você feliz, ou garantir que tenha auto-estima e confiança em si mesmo. Pode mudar o parceiro, mas o problema continua.
Quando nos casamos, estamos procurando alguma coisa, e acreditamos te-la encontrado no companheiro. Mas o casamento não é um romance embrulhado pra presente. Na verdade, o casamento nada mais é que um lugar de equilíbrio dos conflitos interiores de duas pessoas. Quando tentamos encontrar felicidade numa relação, o que estamos procurando é harmonia e equilíbrio em nós mesmos.
Mas não enxergamos assim. Só conseguimos sentir que há algo faltando, e então procuramos esta ausência fora de nós. Somos sacudidos por todo tipo de contradição. Queremos liberdade, mas desejamos proximidade. A generosidade se alterna com mesquinhez.
Em silencio, desejamos paixão, sonhamos em fazer nossas doideiras, queremos gritar com o mundo. Dependendo do quanto somos diciplinados, resistimos a esses desejos, apresentamos ao mundo o nosso melhor lado, e, se isso não funcionar, construímos um desvio para todos esses desejos, vontades, sentimentos e necessidades. Quanto mais fingimos que esta parte de nós não existe, menor a chance dela desaparecer. E nenhum lugar mais propicio de se refletirem de forma clara que nos relacionamentos.
Desejamos uma união física, emocional e espiritual, mas para estabelecer e manter esta sintonia é preciso que sejamos capazes de nos comunicar num nível profundo e significativo, aceitando as diferenças como um desafio para nos tornarmos mais solidários e generosos. É preciso enxergar as tensões como oportunidades para se compreender melhor.
Julgamos nossos parceiros de acordo com nossas expectativas pessoais. E quando elas não são correspondidas, nós o chamamos de sapos, ou monstros. O amor verdadeiro, no entanto, não tem nada a ver com um ideal. Pais de crianças deficientes sabem disso. Voce já se perguntou se seria capaz de abandonar um filho? Mas se seu parceiro não corresponder às suas espectativas, não cumprir bem o seu papel, voce seria capaz de deixa-lo? Voce verdadeiramente o ama?
Estou começando a descobrir que ser um casal é uma das formas mais completas de amadurecer, de aceitação e altruísmo, de dar e receber. De dar no sentido de compreender. De receber no sentido de acolher o outro exatamante como ele é, sem molda-lo às minhas condições e expectativas. Mas isso exige um esforço considerável. Em primeiro lugar, exige crescimento pessoal em seu sentido espiritual mais profundo.
E nenhum lugar é mais propicio a este crescimento que o casamento. Nenhum terapeuta, nem o melhor do mundo, é capaz de explorar nossos sentimentos reprimidos com tanta rapidez e precisão quanto nossos parceiros. Eles conseguem ativar nosso lado negro todos os dias! E mesmo que possamos odia-los por isso, também devemos reconhecer o benefício de nos ajudarem a entrar em contato com nossos demônios interiores, dando-nos a oportunidade de exorciza-los.
Se tivermos coragem para uma mudança radical de ponto de vista, vamos admitir que nossos parceiros não são causa, mas estopim de nossos problemas. E, à medida que formos verdadeiros conosco mesmos, enquanto entendemos e melhoramos estes aspectos pessoais indesejáveis, com intensidade e generosidade, progredimos também com o parceiro, e o amor se torna mais profundo, livre e forte.
E quando curamos nossa relação dessa forma, os filhos automaticamente experimentam e compartilham dessa cura.
E, quando nossos filhos estão se curando, toda a sociedade também está.
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