sábado, 14 de março de 2015

Descansos...

Qualquer pessoa que já tenha viajado pela estrada deve se lembrar de ter visto, muitas vezes, pequenas cruzes junto ao acostamento.

São os chamados descansos, sepulturas. Às vezes estão reunidas em grupos, duas, três, cinco. Em algumas, há nomes escritos. É comum que estejam decoradas com flores, verdadeiras ou artificiais.

Os descansos são símbolos que registram uma morte. Bem ali, exatamente naquele ponto, a jornada de alguém pela vida afora foi interrompida inesperadamente.

Com as mulheres muitas vezes ocorre o mesmo. A maioria de nós, antes de completar vinte anos, já morreu centenas de mortes. Íamos numa direção ou outra e fomos impedidas de prosseguir. Tínhamos sonhos e esperanças que foram cortados pela raiz, muitas vezes acidentalmente.

Ainda que estes fatos tenham aprofundado nosso senso de individualidade, tenham marcado nosso crescimento, eles também foram tragédias profundas, e assim devem ser pranteados.

Criar descansos é uma técnica consciente de se compadecer dos mortos órfãos da nossa psique, e lhes prestar a devida homenagem, sepultando-os finalmente.

Criar descansos significa examinar nossa vida e marcar os pontos em que ocorreram pequenas ou grandes mortes, os pontos em que morreram aspectos de nossa vida interior, assinalando a ocasião em que escolhemos seguir ou não determinada estrada, em que tivemos algum caminho obstruído.

Seja boa consigo mesma, crie descansos, sepulturas para aqueles seus aspectos que estavam à caminho de algum lugar. Coloque-se numa linha cronológica imaginária da sua vida e pergunte-se: “Onde estão as cruzes? Onde estão os pontos que devem ser pranteados?” Em todos eles há significados que trouxeram você até sua vida atual. Eles precisam ser lembrados, e ao mesmo tempo precisam ser esquecidos.

Criar descansos é transformador. Eles assinalam locais de morte e tempos sombrios, mas também se tornam cartas de amor ao nosso sofrimento. Leva tempo, e requer paciência. Mas existem inúmeros benefícios em prender certas coisas embaixo da terra, para que elas não saiam pela vida afora nos perseguindo. Há muitas vantagens em sepultá-las...

Inspirado na leitura de "Mulheres que correm com lobos"

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