Eu e o papel nos encaramos,
nos compreendemos.
E há cumplicidade neste nosso olhar.
Não há meio mais secreto e íntimo de formular pensamentos,
desarmar sentimentos, é solitário
íntmo, particular.
Relacionamento sério, talvez
não constante, mas fiel.
Não há forma mais inspiradora.
Não para mim.
Poderia dizer que eu até abuso desta intimidade tão completa;
ele está sempre ali, atento
disposto, presente. Recolhe
os garranchos que o pensamento febril
faz a mão vomitar veloz.
Ele me entende. Acolhe
e guarda o que já não cabe em mim.
Não é passivo, nem de longe. Devolve
a mim um olhar crítico sobre meu próprio eu. Limpidez
de espelho. Reflexo.
Gosto de pensar que ao fechá-lo, ele me digere.
Depois me devolve o melhor de mim, condensado
em cápsulas vitais.
Sim, cada vez que releio, é sob novo olhar.
Ele interpreta a mim mesma.
É meio amizade, como a maioria das minhas:
Sem constância, mas eterna.

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