Relutei muito em escrever este texto, e os que realmente me
conhecem irão entender o motivo. Mas os acontecimentos políticos recentes, e
sua posterior repercussão nas redes sociais, tem mexido com algo dentro de mim.
Tenho visto com frequência postagens com fotos estereotipadas,
tentando reforçar a ideia de que as pessoas que tem saído às ruas, nas ultimas
manifestações contra o governo, fazem parte de uma elite privilegiada, que não busca
mais do que manter suas regalias.
( As imagens mostradas nesta postagem tem como finalidade única mostrar que é possível criar estereótipos a partir de qualquer ponto de vista.)
Imagens que mostram posicionamento de extremos podem ser
apresentadas dos dois lados do movimento, como se pode ver nas fotos ao longo
deste texto, tanto para bem servir como para desvirtuar o propósito de cada um ao
comparecer às manifestações, não importa o lado que defenda.
Mas o que verdadeiramente me incomoda é a ideia que querem passar, de que
somos uma parcela da população desvinculada e desinteressada dos problemas
sociais, e que agora se apresenta reclamando, apenas em proveito próprio.
A
questão não é bem assim.
Faço parte de uma parcela da população apartidária, que pouco
se envolveu diretamente na política, por acreditar que enquanto estivesse sendo
produtiva, cumpridora de seus deveres e
pagando em dia seus impostos, o estado seria ao menos minimamente cumpridor de
seu papel no retorno em serviços públicos e na redistribuição justa de renda
através dos projetos de cunho social. Infelizmente, com o passar do tempo vimos
que algo estava errado, muito errado.
E resolvemos levantar a nossa voz.
Partidários do governo ainda se posicionam historicamente
como se estivéssemos numa luta de classes, uma luta meramente reduzida a
opressores e oprimidos, onde não há lugar para meio termo, nem para a atual
conjuntura social e econômica, numa ideologia totalmente ultrapassada, recendendo
a século 19 e seus totalitarismos.
Para melhor exemplificar, devemos lembrar que no Brasil, quando saímos
do período histórico de hiperinflação e entramos na propalada era de estabilidade
econômica, muitas pessoas que acreditaram no progresso do país resolveram
empreender de forma produtiva.
Utilizando-se de recursos econômicos e reservas próprias, patrimônio
adquirido arduamente através de sacrifícios familiares de uma geração inteira, muitos
vendendo carros, casas ou aplicando saldo de acordos de aposentadoria
antecipada, investiram em negócio próprio, sonho de 10 entre 10 assalariados,
tornando-se micro e pequenos empreendedores das mais diversas atividades econômicas.
Esta parcela da população entende, sim, que existem
diferenças sociais profundas que merecem atenção por parte delas e do governo -
um governo que ela sustenta com impostos,
trabalhando cinco meses por ano para pagá-los, uma vez que governo, para quem ainda
não se deu conta, não produz renda, apenas amealha e distribui como melhor lhe convier.
Somos gente que jamais reclamou da redistribuição de renda por
meio de programas sociais, mas reclama sim de sua má admistração e ingerência, da falta
de estrutura elementar para que estes programas não transformassem eleitores em presas fáceis de currais eleitoreiros, e por não ver neles a menor disposição para transformar
os atuais beneficiários em potenciais produtores de bens e serviços,
propiciando que o beneficio se estendesse a outros em situação idêntica.
Somos uma parcela da população que não tem horário de trabalho
pré-definido, férias com adicional, abonos, ou fundo de garantia por tempo de
serviço. Uma população que, se adoecer, não tem quem sustente sua casa e seu
negócio, e que atualmente se vê economicamente exaurida, inapelavelmente “quebrada”,
seus sonhos de futuro promissor desfeitos, seus esforços vãos.
Gente que em sua maioria agora, encontra-se tendo que fechar seus
negócios, despedir funcionários, ficando não apenas sem seu patrimônio inicial, mas endividada
com fornecedores bem como com a receita federal.
Esta parcela da população responde por 1/3 do PIB nacional, é
responsável por cerca de 52% de todos os postos de trabalho com carteira
assinada, ou seja, mais da metade dos empregos, além de arcar com 40% da massa
salarial brasileira, segundo informações do SEBRAE colhidas em 2011.
É esta gente que está nas ruas.
É esta gente que não aguenta mais estar espremida e
sobrecarregada, pagando impostos mais altos por não ser considerada suficientemente “pobre”,
enquanto não consegue acordos de benefícios fiscais, por não ser suficientemente
“grande”.
É esta gente, que vê agora seus parcos recursos sendo
arrebanhados pelo governo para escoarem nos valões da corrupção.
É esta gente que está sendo erroneamente taxada de elite...
Elite não vai às ruas. A verdadeira elite está infiltrada no
congresso, fazendo lobby, influenciando políticos e aprovando leis para se auto
beneficiarem. Elite são as grandes empreiteiras que se relacionam promiscuamente
com o governo, exaurindo os cofres do estado às custas da população que paga
impostos. Ou seja, eu e você.
Amarga-me ver que ainda não esteja claro que não é mais uma
questão de “luta”, uma questão de interesses opostos. O governo em questão insiste
em colar em nós a pecha de que não somos “povo”, de que não pode haver um jogo
em que todos ganhem, de que é preciso existir oposição de pessoas, e não apenas
de ideias.
Vestimo-nos de verde-e-amarelo, não para dizer que somos
brasileiros melhores do que os demais, mas para tentar mostrar que TAMBÉM somos
brasileiros.
E mostrar que se esta parcela da população deixar de existir
economicamente, com ela deixa de existir os postos de trabalho que ela
sustenta, bem como os impostos que paga, e consequentemente, o recurso
destinado à distribuição de renda e à alimentação do estado.
Se há que ter luta, ela deve ser no sentido de que esta
parcela da sociedade não pode e não deve desaparecer; pelo contrario, ela deve ser
fortalecida, deve prosperar e ajudar a trazer mais integrantes para seu eixo,
diminuindo gradativamente a pobreza e os bolsões de miséria que ficam abaixo.
Não há como esta
parcela da população subir um degrau social, mas se ela descer empurrará consigo
a tantos outros, e ficaremos todos mergulhados no mesmo abismo.
Ironicamente, os apoiadores do atual governo e desta
dicotomia ainda não se deram conta de que, enquanto historicamente sempre se
colocaram em prol dos menos favorecidos, na atual conjuntura se encontram na contramão
da história, e por conta disto sua causa, seja lá qual for o lado que ganhe, já
está perdida...






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