quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Estou fazendo 40 anos hoje...


Estou fazendo 40 anos hoje, e algumas pessoas me dizem que anuncio isso com uma certa gravidade. Não como quem está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina ou vou ali comprar o jornal. Mas como quem está proclamando: vou fazer 40 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave.
Elas estão certas: antes dos 40 as coisas são diferentes.

Fazer 15, 18, 21 ou 30 é ir numa escala montanha acima, enquanto fazer 40 é chegar a um patamar onde se pode mais agudamente descortinar. Como me faltam palavras, vou buscá-las em uma crônica publicada a muitos anos atrás numa revista, de Affonso Romano de Sant’Anna, que tem me inspirado, e da qual vou tentar reproduzir a essência.

Fazer 40 anos, disse ele, é começar a provar o néctar dos deuses e descobrir o sabor que tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas.

Fazer 40 anos, bem poderia dizer Clarisse Lispector, é cair em área sagrada.

Antes, vamos emitindo promissórias, agora é hora de começar a pagar. Já cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável; provavelmente já se escolheu a profissão, já se esteve na primeira mesa de trabalho, já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas e viagens; todo o tipo de viagens; até das drogas já retornou quem tinha que retornar.

Fazer 40 anos não é uma coisa fácil. Não é, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 39 para a casa dos 40, saltitante.

Fazer 40 anos é uma epifania.
Voce e seus 40 corpos, como anéis em um tronco, cheio de eus e de nós, arborizado e arborizando, ao sol e à sós.

Na verdade, fazer 40 anos não é para qualquer um. Talvez haja quem o faça aos 30, outros aos 45, e alguns, nunca. Não há como obriga-los. Porque fazer 40 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Mas fazer 40 anos é sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se estivesse criado por sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana, algo mais que uma nebulosa, meio pulsante, e que se entreabrisse em sementes.

Aos 40 já sabemos os contornos e os limites da ilha, onde sopram os ventos e as tempestades e, como um náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já sabemos que o tempo em nós destila, que no tempo a gente se desloca, a gente se dilui e se dilema. É como uma pedra que não precisa exibir preciosidade, pois que já não cabe em preços.

Fazer 40 anos é passar da reta à curva, da quantidade à qualidade. É quando se operam maravilhas, como se fossemos um cego em Jericó.

Fazer 40 anos é mais do que poder olhar para trás. É hora de se abismar.
Por isso, é necessário ter asas, para sobre o abismo voar.

Um comentário:

  1. Amiga, irmã, parceira. Na minha cabeça n existe a idade. O tempo é uma vento leve que sopra sobre minha e sua cabeça. Adentre neste mundo novo que se descortina a sua frente com a mente fresca. Permita-se voar sobre o abismo com a sabedoria das experiências acumuladas ao longo dos 39, com a sensibilidade para enxergar a beleza das flores, dos pássaros , da criação que preencheeste abismo. Te surpreenderás com as maravilhas desta nova etapa de vida.
    Um bj doce neste coração guerreiro.

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