
Conheci certa vez uma menina, filha caçula de um casal bondoso, trabalhador e bem-sucedido.
A menina e seus cinco irmãos moravam em uma propriedade cercada por árvores frondosas. Ali, o entrosamento em grupo estava entre os valores essenciais para a harmonia familiar. As reuniões festivas eram freqüentes, assim como encontros com numerosos parentes, fatos que passariam a ser marcantes na memória da menina. Havia sinceridade, união e alegria em meio à atmosfera de fartura, simplicidade e amor – três pontos sempre desejados pelo casal.
A menina e seus cinco irmãos moravam em uma propriedade cercada por árvores frondosas. Ali, o entrosamento em grupo estava entre os valores essenciais para a harmonia familiar. As reuniões festivas eram freqüentes, assim como encontros com numerosos parentes, fatos que passariam a ser marcantes na memória da menina. Havia sinceridade, união e alegria em meio à atmosfera de fartura, simplicidade e amor – três pontos sempre desejados pelo casal.
Acompanhei o crescimento dessa menina, que logo me escolheu por confidente. Descobria, assim, que a sua infância esteve repleta de momentos felizes, porém entremeados de isolamento: eram muitos os compromissos de seus pais, enquanto os irmãos viviam constantemente atribulados com afazeres ou estudos. Desse modo, ela habituava-se a receber a eventual atenção materna e a dividir seus pensamentos com bonecas, aquarelas e livros de fadas.
Com a chegada da adolescência, ela se viu confinada à casa . Suas saídas e entradas eram controladas segundo os princípios rígidos da moral impenetrável dos pais, imigrantes europeus. Ela poderia ter tudo, mas não alcançava o que ansiava: ser levada por descobertas, erros,
acertos e ímpetos de qualquer jovem. Logo perceberia que a solução apenas ela poderia criar, se partisse de alternativas que fossem socialmente aceitáveis. Casar, por exemplo.
Moça precoce, aos 14 anos ela inicia um romance com o seu melhor amigo, decidida a conseguir a independência absoluta do território familiar. Ingênua, acreditava ser essa a grande opção. E, por certo, foi. Casada, viveu feliz por algum tempo com o homem que escolhera.
Tempos depois, seu mundo caiu. O romance, tão aceso no início, estava transformado em prato morno. A menina que brincava de ser mulher pediu a separação.
Houve enorme desgosto na família, que passou a considerá-la um problema ao cubo. Como fazer para preservar a imagem familiar de prestígio e de ramificações empresariais importantes? A irmã caçula apresentava a eles um potencial explosivo e autodestrutivo. Separação homologada,
ela se viu na berlinda. Não poderia errar mais, sob pena de receber penalidades máximas no âmbito familiar. Mas como os corpos não são de ferro, lá se foi ela rumo ao segundo casamento. Antes, garantiu-me ser uma escolha mais amadurecida. O marido era empreendedor, havia entre eles grande atração física e afinidades diversas.
Pausa. Vários anos mais tarde, depois de períodos de esmagamento pessoal, ela estava prestes a sucumbir à submissão imposta pelo marido, aos maus-tratos psicológicos e ao papel de subserviência doméstica. Rompeu-se o seu segundo casamento, com reação ainda mais dura da
família. Restou à menina que conheci, naquele período transformada em animal acuado e indefeso, a punição com o que foi considerado condizente ao peso da separação: internação psiquiátrica.
Ela se submeteu, sentindo-se apagada, sem viço, sem vigor, sem voz. Diagnóstico: tristeza. Cura: sem prazo. Suas tentativas e erros estavam transformados em drama familiar de grandes proporções. Os irmãos negavam apoio. Pior: os irmãos a faziam sentir-se deformada, derrotada, aniquilada. Sem contar que a sua opinião jamais voltaria a valer, por ela “só ter cometido erros”. Garantiam que ela nunca acertaria em decisão alguma. Qualquer que fosse a sua posição, essa
posição seria considerada incômoda ao grupo. A minha amiga encurralada lembrava-me, naqueles momentos de baixa estima, que algumas plantas do deserto sobrevivem com apenas uma gota de água por ano. Essa foi a metáfora que usava para me dizer que um dia seria vitoriosa e voltaria a se sentir viva. Quisessem ou não os seus irmãos. Ela estava certa: invejada por se manter alerta, a perseverança seria a melhor resposta a dar.
Excetuando-se o amor que recebia dos pais, ela sentia os dardos do desprezo e da maldade lançados pelos outros membros da família. Ultrapassada aquela fase terrível, ela passou a entender que se uma família propõe ajuda por outros ângulos, também pode oferecer desilusão, frustração e desrespeito. De nada adiantaria, pensava a minha sofrida amiga, o acúmulo
de trabalho e de poder se não se consegue lidar com sentimentos humanos como a cordialidade, a fraternidade, o amor ao próximo. Mas a garota que eu conhecera e que se havia transfigurado em uma mulher maltratada, iniciava então um processo de renovação mental, física e espiritual.
Como uma caixa de Pandora, ela aprendeu a lidar com seus desejos escondidos, com suas idéias em ebulição e com suas pequenas fadas invisíveis.
Começava a sentir algo poderoso: uma força estranha, luminosa e renovadora a fazia encarar o mundo sem medo. Finalmente, surgia a mulher que conseguiria olhar as feridas sem medo do
sangue, a mulher que enfrentaria traumas e a mulher destemida que podia até gritar “danem-se todos”. Era como se de dentro da caixa invisível de uma Pandora moderna, aparecessem mil e uma faces de deusas, amazonas, entidades mitológicas e espíritos delicados de grande intensidade cósmica. Ela abriu a caixa e deixou escapar Afrodite, Ísis, Zorya, Olulu, Maria, Juno, Diana, Ixchel, Bona Dea, Astrea, Kupalo, Lakshmi, Maha Devi, Yacy, Sophia, Shadai, Samana e mais uma série de pequenas criaturas que só ela conhecia pelo nome, que só ela sabia do poder de cada uma.
sangue, a mulher que enfrentaria traumas e a mulher destemida que podia até gritar “danem-se todos”. Era como se de dentro da caixa invisível de uma Pandora moderna, aparecessem mil e uma faces de deusas, amazonas, entidades mitológicas e espíritos delicados de grande intensidade cósmica. Ela abriu a caixa e deixou escapar Afrodite, Ísis, Zorya, Olulu, Maria, Juno, Diana, Ixchel, Bona Dea, Astrea, Kupalo, Lakshmi, Maha Devi, Yacy, Sophia, Shadai, Samana e mais uma série de pequenas criaturas que só ela conhecia pelo nome, que só ela sabia do poder de cada uma.
Desde então, a menina que conheci ainda habita a alma dessa amiga, hoje uma mulher iluminada por uma beleza que ela própria buscou, por uma fortaleza espiritual que lhe foi dada depois do sofrimento, por uma conexão planetária que adquiriu ao olhar as coisas simples da vida.
Minha amiga hoje é feliz.
E conversa diariamente com suas fadas protetoras, com suas mil e uma faces femininas.
fonte: Lucília Diniz - Frente & Verso
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