quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Quando Nietzsche Chorou - resenha


Algumas coisas tem seu tempo certo de acontecer. Eu acredito nisso. Alguns argumentos já tentaram me persuadir de uma organização aleatória dos acontecimentos que regem nossas vidas. Não convenceram. Tenho provas demasiadas em minha vida de que algo, ou “alguém”, está orquestrando estes acontecimentos para que ocorram no momento e da maneira certos para que eu possa obter o maior aproveitamento possível em termos de crescimento e aprendizado pessoal.

Você poderia dizer que isso é mero acaso, que eu devo estar intensamente “ligada” no que me acontece, para tirar estas conclusões. Ledo engano. Não existe pessoinha mais desligada do que eu. Os “click’s” só acontecem muito depois, embora eu tente ficar de antenas ligadas, para tentar “sacar” melhor as coisas e reagir a elas da melhor maneira, mas isso quase nunca acontece. Normalmente o propalado “acaso” trata de me colocar nas diferentes situações e só depois vou perceber que aquilo era exatamente o que eu estava precisando, exatamente naquele momento.

Isso aconteceu mais uma vez ao ler Quando Nietzsche chorou, de Irvim Yalom. Foi com incrível rapidez que devorei esse exemplar, o que pode ser facilmente explicável em algumas colocações: o livro trata de um possível começo da psicanálise de forma séria e profunda e há nele uma clarificação da personalidade de um dos mais cativantes e solitários filósofos do fim do século XIX. E o que dizer de um possível embate psicológico entre o Dr. Breuer (verdadeiramente um dos pais da psicanálise) e o poderoso e reservado Fiederich Nietzsche?

Sem criar estruturas narrativas complexas e diferentes, esse livro faz o básico com incrível capacidade, o que já é louvável por si só. Magistralmente escrito, ele possui todas as formas variadas, e até hábeis, de manter o leitor concentrado na trama, deixando momentos de tensão, angústia e relaxamento bem distribuídos ao longo dos capítulos, que chamam uns aos outros em seqüência, obrigando o leitor a não parar de ler até que vire as ultimas páginas.

É com total cuidado que ele propõe possíveis diálogos entre os protagonistas que, existindo na vida real, nunca se encontraram de fato. Refletem o peso de uma pesquisa cuidadosa de como eram, se comportavam e provavelmente agiam os personagens. Aplicando enxertos de cartas que realmente foram trocadas entre algumas pessoas, como o grande compositor Wagner e a poderosa Lou Salomé, ele dá mais densidade aos fatos reais e fictícios, os quais só vamos conseguir separar ao ler os seus comentários no fim do livro. Recomendo que leiam o livro sem saber o que é verdade ou invenção, pois dá um sabor maior à leitura.

Os cenários criados e suas interpretações, assim como possíveis origens do estudo dos significados dos sonhos, é algo que soa totalmente verossímil ajudando o leitor a adentrar a historia e praticamente a vive-la conjuntamente.

Tive conhecimento deste livro, escrito em 1992, a muito tempo atrás, e sempre tive curiosidade em ler, mas alguma coisa sempre dava errado ou me impedia. Bem, pelo menos para mim, agora está explicado. Eu não estava preparada para ele antes. Foi totalmente impactante ver refletidos nos sintomas, angustias e significados dos personagens muitas das minhas próprias questões pessoais.

Não que não tenha percebido a grande capacidade de Irvim Yalom, enquanto psiquiatra experiente e renomado, em explanar em linhas gerais as angústias e questionamentos inerentes à toda a humanidade. Mas falo da minha capacidade recém adquirida em me enquadrar, no plano pessoal e com minhas particularidades, nestas questões universais.

Sim, volto a dizer, o livro veio para mim no momento exato. Espero, mais que ter aprendido com ele, aplicar em minha vida prática tudo que absorvi intelectualmente. Tenho certeza que isso fará “a” diferença.

Eu poderia dizer exatamente em que o livro me tocou tão profundamente, mas vou terminar com uma frase extraída do mesmo, que reflete com exatidão meu pensamento neste momento: “Mas mesmo que eu conseguisse evocar detalhes precisos, que valor teriam para você, Friedrich? Você mesmo me ensinou que não existe “o” caminho, que a única grande verdade é aquela que descobrimos para nós mesmos!”

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