segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Um olhar do passado, presente

Acordei hoje lembrando-me de uma véspera de natal, há muuuitos anos atrás. Dezesseis natais atrás, especificamente. Lá estava eu, comprando entradas para um espetáculo de circo e, enquanto esperava, fui dar uma olhadinha nos animais. Estava visitando dona Elefanta, ela enooorme como eu estava na ocasião, seus tornozelos inchados e redondos como eu os tinha na ocasião e, para minha surpresa e consternação, soube que estava para dar à luz, assim como eu estava na ocasião...

Será que foram aqueles olhos mortiços e cálidos, tranqüilos na sua sabedoria animal, que me provocaram interiormente? Aquela extrema calma na certeza de que estaria disposta a ir até o final sem fraquejar, que tudo que viria a seguir seria suportado com toda fleuma? Que estava disposta aos maiores sacrifícios para trazer ao mundo “seu” filhote? Sei lá, de repente foi só o meu tempo que venceu, minha hora que chegou, mas foi ao olhar nos olhos daquela linda paquiderme, dezesseis anos atrás, me sentindo tão grande quanto ela, que senti minha primeira contração...

Na hora, nem reconheci a dor como tal, dorzinha miúda, pontadinha discreta e insignificante. Deve ser só cansaço, quem manda, onde já se viu vir pro circo com nove meses de gravidez já completos, só eu mesma...

Mas não demorou muito e a dorzinha insistente começou a mostrar o ar de sua graça e à que veio! Corre pra casa, menina, vai buscar a bolsa da maternidade, que a bolsa amniótica tá pra estourar! (Poxa, nem deu pra ver os palhaços...)

Oh, que noite! Que sufoco, euzinha, primípara de primeira viagem, (quem se importa com redundâncias nesta hora!), envolta em camisolas hospitalares ridículas, que deixam o trazeiro de fora, e consolos familiares também ridículos, porque não consolam nada nesta hora nefasta!

Quase doze horas depois, de um parto que não foi cesariano, mas que eu considero até hoje como ANORMAL, lá estava eu com minha filhotinha nos braços, e certa de que tudo valera a pena...

Dezesseis anos se passaram, e hoje quem faz os sacrifícios maiores é o meu bebê, ela que não me ouça.

Primeiro dia na faculdade, depois de um currículo escolar de dar inveja a muitos pais, depois de muito sufoco, suor e lágrimas para passar no vestibular da federal, depois de acordar todos os dias às 4.30h da manhã, (credo!), pegar ônibus, viajar 60km, devendo chegar inteira, (de preferência), muitas vezes chegando de volta em casa apenas às oito da noite, hoje ela pode comprovar que, sim, sacrifícios valem a pena!

Que fique aqui registrado para a posteridade que eu me orgulho muito de você, minha querida Daphne. Que você, e todos os demais que me lêem neste momento, saibam que nenhum sacrifício foi demasiado para ver o brilho que existe nos teus olhos hoje, misto de lágrimas, confusão e orgulho. Olhar cheio de incertezas, mas confiante de que vai fazer tudo para dar certo! E eu sei que vai dar...

Obrigada, Meu Deus, por fazer este momento existir. Obrigada, querida, por você ser como é, cheia de garra e confiança, embora às vezes me dê nos nervos (você sabe que eu te amo, apesar de não gostar de você em alguns momentos, hehe)!

E, sobretudo...
Obrigada, Sra. Elefanta! Pode ser até que não, mas quem me garante que eu teria suportado tudo até o final, se não fosse aquele teu olhar?!...

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