quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Meus poemas mais queridos

DESEJO A VOCE

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor
E é preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso
E o riso constante é insano.

Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a despeito de tudo,
Que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas,
Muitas vidas, é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele na sua frente e diga "Isso é meu".
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você.
Mas que se morrer, você possa chorar sem se lamentar
E sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

Poema de Victor Hugo


UM TEMPO PRA MIM

Essa noite o que eu quero é não ter mais compromisso.
Quero deixar pra depois o que não tem urgência.
E como tudo pode esperar, essa noite eu quero deixar tudo para depois.

Quero me livrar das meias, das calças, da camisa e dos calçados.
Quero iluminar meus olhos com o reflexo das imagens retidas,
E filtra-las no foco exato da emoção.

Quero ter olhos voltados apenas para a vida
E descansar as vistas de qualquer outra visão.
Quero libertar meus passos a tal ponto
Que possa caminhar livremente para dentro de mim.
Quero jogar fora a agenda
E deixar de ser refém de quem nunca me diz sim.

Vou dar uma pausa pro mundo
E ter um tempo pra mim.

Esta noite quero me afastar até das minhas verdades
Porque elas também não me convencem mais.

Quero rimar bêbado com anjo,
Campo com cidade,
Guerra com paz,
Perdão com castigo,
Faca com rosa,
Lar com mendigo,
Mel com cuspe,
Eu comigo...
E seguir as pistas da felicidade.

Esta noite estou em conflito com a guerra
E tão mansamente que nem a guerra vai ficar sabendo.

Esta noite vou puxar assunto com a lua
E chamar São Jorge de vilão.

Vou fazer de conta que cansei
E quando tudo acreditar no meu cansaço
Vou fazer de conta que dormi
Para dar um flagrante na brisa
E surpreende-la quando ela entrar para acariciar cócegas em minha face.

Há de ser assim...

Esta noite, pra ser sincero, nem vou acender as luzes,
Com preguiça de apagar depois.
E na penumbra desta noite, pelas frestas das janelas e pelos vãos das portas,
É possível que entre quem, às vezes, quero – e nem sempre tenho,
Quem às vezes, tenho - e nem sempre valorizo,
Quem às vezes, valorizo - e nem sempre apóio,
Quem às vezes, apóio - e nem sempre acredito,
Quem às vezes, acredito - e nem sempre merece,
Quem às vezes, merece - e nem sempre reconheço,
Quem às vezes, reconheço - e nem sempre corresponde,
Quem às vezes, corresponde - e nem sempre percebo,
Quem às vezes, percebo - e nem sempre mantenho,
Quem às vezes, mantenho - e nem sempre amo,
Quem às vezes, amo - e nem sempre perdôo,
E talvez quem, às vezes, me perdoe - merecendo eu ou não.

Esta noite vou me permitir a máxima rebeldia
E que um novo Eu me traga um outro Eu tão firme
Tão mais Eu, que eu seja pleno de ousadia,
A ponto de fazer-me novo e redescobrir-me.

Esta noite, mesmo que o bicho-papão fique rondando minha rede,
Vou fazer de conta que mamãe mentia.
Esta noite vou trocar-me por inteiro,
Vou ser mais coragem, vou ser menos medo;
Vou me dar um sol, presentear-me um dia,
E sair pra vida amanhã logo cedo!

Éver Silva
Publicado no Recanto das Letras em 24/06/2007

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